NECROGAME #02: O TERCEIRO SELO

Um experimento de horror cósmico e terror psicológico em escrita coletiva

Ilustração no estilo horror cósmico e sombrio mostrando um portal de pedra antigo aberto sobre uma mesa de madeira. Do portal azul reluzente emergem várias criaturas monstruosas com tentáculos, dentes afiados e olhos azuis brilhantes. No primeiro plano, sobre a mesa, há um grande livro antigo de encadernação escura com um símbolo gravado na capa, acompanhado por um relógio antigo de ponteiros e velas acesas. O céu ao fundo é escuro, repleto de galáxias e múltiplos olhos gigantes observando do cosmos.

Existem histórias que nascem de uma única mente.

E existem aquelas que parecem nascer de algum lugar mais antigo — um lugar onde as palavras já estavam esperando por alguém que ousasse pronunciá-las.

O NecroGame #02 nasceu desse segundo princípio.

Inspirado no clássico surrealista do Cadáver Esquisito (Exquisite Corpse), o projeto propõe uma experiência de escrita coletiva na qual diferentes autores, sem conhecer antecipadamente o destino da narrativa, acrescentam fragmentos sucessivos a uma mesma história.

A proposta foi simples apenas na aparência: começar com uma única frase e deixar que outros escritores conduzissem a narrativa, frase após frase, comentário após comentário.

A história deveria continuar organicamente.

Cada participante acrescentaria apenas um fragmento.

Ninguém saberia exatamente para onde a narrativa caminharia.

E, justamente por isso, ninguém teria controle completo sobre aquilo que estava sendo criado.

O resultado foi uma narrativa fragmentada, construída por diferentes vozes, perspectivas e sensibilidades — posteriormente reunida e lapidada para esta publicação especial do Crônicas do Abismo.

O que você encontrará a seguir é, portanto, mais do que um conto.

É o registro literário de uma criação coletiva.

Um cadáver esquisito transformado em pesadelo.

Uma história construída a muitas mãos.

E talvez, como acontece com certos livros proibidos, algumas histórias sejam perigosas justamente porque ninguém sabe ao certo quem as escreveu primeiro.


O TERCEIRO SELO

Ao abrir o terceiro selo do Tomo Sem Nome, o relógio da sala parou exatamente às 03:33, mas as sombras na parede continuaram a se mover.

Por alguns segundos, permaneci imóvel.

Meus sentidos confundiam-me. Tentava ver ouvindo, quando, na verdade, só queria recordar do sabor do seu medo.

Não sabia de quem era aquele medo.

Talvez fosse meu.

Talvez fosse de alguma coisa que ainda não havia chegado.

O silêncio da sala parecia possuir uma densidade própria. Era como se o ar tivesse deixado de ser ar e se transformado em alguma matéria invisível, espessa, que entrava pelos pulmões contra a minha vontade.

Olhei ao meu redor, meu corpo tremia. Eu corria meus dedos sobre o portal, em desespero, o mais rápido que podia. Onde estava esse símbolo?

O portal de pedra erguia-se diante de mim como uma ferida aberta na arquitetura da sala.

Eu não me lembrava de tê-lo visto antes.

Mas o livro lembrava.

O Tomo Sem Nome estava aberto sobre a mesa, suas páginas imóveis apesar do vento que começara a atravessar o aposento.

As sombras bailavam à minha volta. Chegavam cada vez mais perto, deixando a atmosfera do lugar sufocante.

Aproximei-me do portal de pedra e procurei o símbolo correspondente ao que estava no livro.

Minhas mãos percorriam as inscrições antigas, procurando alguma forma conhecida em meio àquelas linhas impossíveis.

Mas aquele odor pútrido e extremamente sufocante inundava o meu ser.

Então, de repente, um distante grunhido soou.

Eu não sabia de qual direção ele vinha, pois estava cercado de sombras, mas foi o suficiente para fazer o meu sangue gelar.

Um calafrio arrepiou meus pelos do braço. O suor me descia gelado, mesmo estando frio.

O grunhido tornou-se mais próximo.

Depois outro.

E outro.

Até que percebi que não eram grunhidos.

Eram vozes.

Vozes sem palavras.

Vozes que pareciam tentar recordar como se fala.

Foi quando senti um frio quebrar a minha espinha.

A cabeça girou para trás como uma porta enferrujada.

Os olhos esbugalhados encararam a criatura.

Ela estava parada no centro da sala.

Não havia percebido quando chegara.

Talvez sempre tivesse estado ali.

Foi quando vi a criatura de sete cabeças vindo em minha direção lentamente, com uma chama azul ao invés dos olhos; ela grunhia e me gritava telepaticamente:

— Apenas acredite!

O som de palmas trincou o frio e o raciocínio; a criatura espiava minha alma na mesma intensidade que eu buscava um meio de fugir pelo portal — aquela coisa queria me enlouquecer e estava conseguindo.

As sete cabeças inclinavam-se em ângulos diferentes, como se cada uma observasse uma versão distinta de mim.

Uma delas sorria.

Outra chorava.

Outra parecia não possuir boca.

Mas todas me conheciam.

Eu sabia disso.

Dizem que quando você olha o abismo, ele olha de volta para você…

Tentei gritar, mas a voz não saiu.

As mãos buscaram a garganta, mas aquele desespero ficou entalado e inaudível, como se não houvesse oxigênio.

Subitamente, alguma força estranha me jogou ao chão e desmaiei.


Quando despertei, não sabia quanto tempo havia passado.

O relógio continuava parado.

03:33.

Mas alguma coisa havia mudado.

Eu já não estava sozinho.

As sombras permaneciam próximas, porém agora pareciam imóveis.

A criatura também.

Ela estava diante de mim.

Mais perto.

Muito mais perto.

Neste momento, a criatura me alcançou.

Com suas garras monstruosas segurou minha mão.

Olhei para ela.

Havia um brilho quase humano em seus olhos.

— Me ajude — suplicou a criatura com uma voz gutural.

Fiquei imóvel.

Aquelas palavras não deveriam ter saído dela.

Uma criatura daquela natureza não deveria pedir ajuda.

Deveria devorar.

Deveria destruir.

Deveria enlouquecer quem estivesse diante dela.

Mas havia medo em sua voz.

Medo verdadeiro.

E, pela primeira vez, compreendi que talvez eu não fosse a presa.

O portal começou a se fechar, e compreendi, tarde demais, que a criatura não tentava me impedir de fugir. Tentava fugir comigo.

Seus olhos, antes famintos, arregalaram-se.

O corpo tremia, recuando diante da escuridão.

Atrás dela, alguma coisa se movia.

Não tinha rosto, nem corpo, apenas o som de milhares de unhas arranhando o chão.

O som cresceu.

As paredes estremeceram.

O Tomo Sem Nome começou a virar suas próprias páginas.

Uma.

Duas.

Dez.

Cem.

Até parar em uma página completamente em branco.

Então uma palavra surgiu lentamente sobre o papel.

NÓS.

A criatura olhou para o livro.

Depois para mim.

E eu finalmente entendi.

O terceiro selo não havia libertado aquela criatura.

Havia libertado aquilo que estava atrás dela.

Aquilo que não possuía rosto porque rostos pertenciam às coisas que podiam ser compreendidas.

Aquilo não podia.

Aquilo era anterior.

Anterior ao homem.

Anterior à linguagem.

Talvez anterior ao próprio medo.

Quando finalmente alcancei a passagem, uma mão idêntica à minha agarrou meu pulso do outro lado.

E, antes que eu pudesse gritar, ouvi minha própria voz sussurrar:

— Você está atrasada.

A frase atravessou minha mente como uma lâmina.

Não reconheci aquela voz.

Mas ela era minha.

Eu olhei para a mão que segurava meu pulso.

Era exatamente igual à minha.

Mesmo tamanho.

Mesmas cicatrizes.

Mesmas unhas.

Mesmo anel.

Então compreendi o verdadeiro significado daquelas palavras.

Eu não estava entrando no portal.

Eu já havia estado lá.

Talvez inúmeras vezes.

Talvez aquela noite tivesse acontecido antes.

Talvez estivesse acontecendo naquele exato momento em algum lugar que não obedecia às mesmas leis do tempo.

O relógio continuava marcando 03:33.

A criatura me puxava para um lado.

Minha própria mão me puxava para o outro.

E, atrás de nós, o som das milhares de unhas finalmente cessou.

O silêncio foi absoluto.

Então ouvi uma respiração.

Não vinha da criatura.

Não vinha de mim.

Vinha de dentro do portal.

Uma respiração lenta.

Profunda.

Antiga.

O símbolo que eu procurava apareceu diante dos meus olhos.

Não estava no portal.

Não estava no livro.

Estava gravado na palma da minha mão.

Olhei para ela.

E percebi que o símbolo não era uma chave.

Era um olho.

Um olho aberto.

O terceiro selo havia sido apenas uma porta.

Eu era a fechadura.

A criatura apertou minha mão.

— Não olhe — sussurrou.

Mas já era tarde.

Olhei.

E o abismo olhou de volta.

Não havia escuridão do outro lado.

Havia estrelas.

Milhões delas.

Bilhões.

Mas não eram estrelas.

Eram olhos.

Olhos gigantescos, espalhados por uma imensidão que não poderia existir dentro de nenhum espaço conhecido.

E todos estavam voltados para mim.

Foi nesse instante que percebi que aquela coisa não estava tentando entrar em nosso mundo.

Nosso mundo é que estava dentro dela.

A sala.

O livro.

O portal.

A criatura.

Eu.

Tudo.

Apenas pequenas ideias dentro de alguma consciência incompreensível.

E aquela consciência havia acabado de acordar.

O portal começou a desaparecer.

A criatura gritou.

As sete cabeças ergueram-se simultaneamente.

As chamas azuis dos seus olhos se apagaram uma a uma.

A mão idêntica à minha soltou meu pulso.

E o relógio voltou a funcionar.

03:34.

Silêncio.

Quando abri os olhos, estava sozinho.

O portal havia desaparecido.

A criatura também.

As paredes estavam intactas.

A sala parecia normal.

Por alguns segundos, cheguei a acreditar que tudo havia terminado.

Então percebi o Tomo Sem Nome sobre a mesa.

Ele estava aberto.

Havia uma nova página.

Aproximei-me lentamente.

Nela, escrita com uma caligrafia idêntica à minha, estava uma única frase:

“O terceiro selo foi fechado; agora, abra o quarto.”

Fiquei olhando para aquelas palavras sem conseguir respirar.

Então ouvi o relógio parar novamente.

03:33.

Dessa vez, porém, não olhei para as sombras.

Porque havia aprendido algo naquela noite.

As sombras não eram o que eu deveria temer.

Eram apenas aquilo que permanecia visível quando alguma coisa muito maior se aproximava.

Atrás de mim, uma respiração profunda encheu a sala.

E uma voz, usando todas as vozes que eu já ouvira naquela noite, sussurrou:

— Apenas acredite.

O Tomo Sem Nome fechou-se sozinho.

Na capa, onde antes não havia inscrição alguma, surgiu lentamente um novo símbolo.

Um quarto selo.

E, pela primeira vez, o relógio não marcou 03:33.

Marcou uma hora que não existia.


AUTORES DOS FRAGMENTOS

O NecroGame #02 foi construído coletivamente a partir das contribuições publicadas pelos participantes nos comentários da proposta original.

Os fragmentos utilizados na composição desta versão são atribuídos aos seguintes perfis do Instagram:

@literataque

Responsável pelo fragmento:

“Meus sentidos confundiam-me. Tentava ver ouvindo, quando na verdade só queria recordar do sabor do seu medo.”

@rebecapaschoal_escritora

Responsável pelo fragmento:

“Olhei ao meu redor, meu corpo tremia. Eu corria meus dedos sobre o portal, em desespero, o mais rápido que podia. Onde estava esse símbolo?”

@em_frassi

Responsável pelos fragmentos:

“As sombras bailavam à minha volta. Chegavam cada vez mais perto, deixando a atmosfera do lugar sufocante.”

e

“Neste momento a criatura me alcançou. Com suas garras monstruosas segurou minha mão. Olhei para ela. Havia um brilho quase humano em seus olhos. — Me ajude – suplicou a criatura com uma voz gutural.”

@raphael.tonussi

Responsável pelo fragmento:

“Me aproximei do portal de pedra e procurei o símbolo correspondente ao que estava no livro.”

@viagensdaments

Responsável pelo fragmento:

“Mas aquele odor pútrido e extremamente sufocante inundava o meu ser.”

@narrativasadaptadase1cdcafe

Responsável pelo fragmento:

“De repente um distante grunhido soou. Eu não sabia de qual direção ele vinha, pois estava cercado de sombras, mas foi o suficiente para fazer o meu sangue gelar.”

@solonmelo.escritor

Responsável pelo fragmento:

“Um calafrio arrepiou meus pelos do braço. O suor me descia gelado, mesmo estando frio.”

@raphaelly.lima

Responsável pelo fragmento:

“Foi quando senti um frio quebrar a minha espinha. A cabeça girou para trás como uma porta enferrujada. Os olhos esbugalhados encararam a criatura.”

@chaos_catarse

Responsável pelo fragmento:

“Foi quando vi a criatura de sete cabeças vindo em minha direção lentamente, com uma chama azul ao invés dos olhos ela gruinha e me gritava telepaticamente:”

@ricardoporto1977_

Responsável pelo fragmento:

“Na minha mente, a criatura do abismo ordenou: APENAS ACREDITE!”

@philippethorp

Responsável pelo fragmento:

“O som de palmas trincaram o frio e o raciocínio; a criatura espiava minha alma na mesma intensidade que eu buscava um meio de fugir pelo portal — aquela coisa queria me enlouquecer e estava conseguindo.”

@milionmilim

Responsável pelo fragmento:

“Dizem que quando você olha o abismo, ele olha de volta para você… Tentei gritar mas a voz não saiu. As mãos buscaram a garganta mas aquele desespero ficou entalado e inaudível, como se não houvesse oxigênio. Subitamente alguma força estranha me jogou ao chão e desmaiei.”

@debbybrasildf

Responsável pelo fragmento:

“O portal começou a se fechar, e compreendi, tarde demais, que a criatura não tentava me impedir de fugir. Tentava fugir comigo. Seus olhos, antes famintos, arregalaram-se. O corpo tremia, recuando diante da escuridão. Atrás dela, alguma coisa se movia. Não tinha rosto, nem corpo, apenas o som de milhares de unhas arranhando o chão. Quando finalmente alcancei a passagem, uma mão idêntica à minha agarrou meu pulso do outro lado. E, antes que eu pudesse gritar, ouvi minha própria voz sussurrar:

— Você está atrasada.”


AGRADECIMENTOS

Um experimento como o NecroGame só existe porque alguém aceita lançar uma primeira palavra ao abismo — e porque outras pessoas têm coragem de responder.

Por isso, deixo aqui meu agradecimento especial a todos os autores que participaram desta segunda invocação.

Cada fragmento acrescentou uma peça diferente àquilo que, no início, era apenas uma frase.

Uma sombra tornou-se uma criatura.

Uma criatura tornou-se uma ameaça.

Uma ameaça tornou-se uma porta.

E uma porta acabou revelando algo muito maior do que qualquer um de nós poderia ter planejado individualmente.

É justamente essa a beleza de uma experiência de escrita coletiva: ninguém possui sozinho o controle sobre a história, mas todos deixam nela uma parte de sua própria imaginação.

Aos participantes que emprestaram suas palavras a este conto, meu sincero obrigado.

E fica também o convite aos leitores:

conheçam o trabalho desses autores.

Visitem seus perfis no Instagram, descubram suas histórias, seus livros, seus projetos, seus universos e suas obras.

Os nomes reunidos nesta publicação não são apenas créditos de uma experiência literária; são escritores e criadores que, cada um à sua maneira, continuam alimentando o imaginário, a literatura e o prazer de contar histórias.

Sigam seus trabalhos.

Leiam suas obras.

Descubram o que mais existe além dos fragmentos que encontramos aqui.

Porque talvez o verdadeiro espírito do NecroGame esteja justamente nisso:

uma história termina, mas as vozes que a construíram continuam.

E, enquanto houver alguém disposto a escrever a próxima frase, o abismo continuará respondendo.


Bruno Reallyme

Idealizador e organizador do NecroGame #02

Crônicas do Abismo
Editora Necrolivro


NOTA EDITORIAL

Esta publicação é uma edição literária do experimento coletivo NecroGame #02, inspirada no conceito do Cadáver Esquisito.

Para transformar os comentários em um conto contínuo, os fragmentos dos participantes foram reorganizados narrativamente e receberam ajustes pontuais de ortografia, concordância e pontuação quando necessários à compreensão do texto.

As passagens de ligação, ambientação, desenvolvimento e encerramento foram acrescentadas editorialmente para conferir unidade narrativa ao conjunto, mantendo como núcleo da composição as contribuições dos participantes identificados na seção Autores dos Fragmentos.

Os perfis mencionados correspondem aos nomes de usuário utilizados pelos respectivos participantes no Instagram no contexto da publicação original do desafio.

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