
Existe uma ilusão reconfortante, cuidadosamente tecida nas dobras do cotidiano humano: a de que o mundo em que caminhamos foi projetado para nos acolher. As cidades, as instituições, os discursos públicos e os gestos de solidariedade parecem, à primeira vista, compor uma arquitetura destinada à convivência. Entretanto, basta observar atentamente as ruas, os edifícios e as relações sociais para perceber que essa promessa de acolhimento frequentemente não passa de uma fachada.
Em determinados dias do calendário, a sociedade veste suas melhores palavras. Fala-se em inclusão, diversidade, respeito e superação. As redes sociais se enchem de mensagens inspiradoras, enquanto a deficiência é convertida em símbolo de coragem, resiliência e triunfo sobre a adversidade.
Mas o que acontece quando a celebração termina?
Quando as flores metafóricas da primavera desaparecem e as pessoas retornam à rotina, permanecem as calçadas inacessíveis, os transportes que não contemplam todos os corpos, os ambientes educacionais despreparados e as estruturas profissionais que continuam excluindo aqueles que não se encaixam em seus padrões?
É nesse intervalo entre o discurso e a realidade que o absurdo se manifesta.
A deficiência, quando observada pela perspectiva da literatura fantástica, do horror cósmico e da filosofia existencial, permite uma investigação que ultrapassa a dimensão individual. Ela nos conduz a uma pergunta incômoda: e se o verdadeiro abismo não estivesse no corpo humano, mas no mundo que construímos ao redor dele?
Essa pergunta constitui o ponto de partida para uma reflexão sobre o capacitismo como fenômeno social, a arquitetura urbana como expressão de uma ordem excludente e a fantasia da superação como instrumento de ocultação da injustiça.
Nas páginas de Crônicas do Abismo, interessa-nos explorar precisamente esse território: o lugar em que o cotidiano se torna estranho, a normalidade revela sua violência e os monstros deixam de habitar os castelos assombrados para ocupar as estruturas mais banais da existência.
1. O Horror Cósmico e a Arquitetura da Indiferença
O horror cósmico, associado sobretudo à obra de H. P. Lovecraft, parte de uma ideia perturbadora: o universo não foi concebido para atender às necessidades humanas.
Diante de forças imensas, antigas e incompreensíveis, a humanidade descobre que sua existência não ocupa necessariamente uma posição privilegiada na ordem das coisas.
As entidades cósmicas não precisam odiar os seres humanos. Sua indiferença é suficiente para produzir terror.
Cthulhu, Azathoth e outras figuras do imaginário lovecraftiano representam, cada uma a seu modo, a ruptura da ilusão antropocêntrica. O universo não precisa nos perseguir para ser assustador. Basta que ele não tenha sido feito para nós.
Ao transportar essa premissa para a experiência social das pessoas com deficiência, encontramos uma analogia particularmente fértil.
A cidade contemporânea pode ser compreendida como um cosmos projetado segundo uma ideia restrita de humanidade.
Suas ruas, seus prédios, seus sistemas de transporte e seus mecanismos de comunicação são frequentemente organizados a partir de um modelo presumido de corpo, percepção e mobilidade. Quem não corresponde a esse modelo encontra obstáculos que não são naturais, inevitáveis ou metafísicos, mas produzidos por decisões humanas.
Uma escadaria sem alternativa acessível não é uma manifestação do destino.
Uma informação sem recursos de acessibilidade não é uma fatalidade cósmica.
Um transporte que não contempla diferentes necessidades de mobilidade não é uma criatura incompreensível surgida das profundezas do universo.
São escolhas de planejamento, prioridades institucionais e omissões que podem ser identificadas, questionadas e transformadas.
O horror, nesse caso, não está na existência de um universo indiferente, mas na descoberta de que a indiferença foi incorporada deliberadamente à organização do mundo social.
A cidade como entidade estranha
Proponho chamar esse fenômeno de Cosmologia da Inacessibilidade.
A Cosmologia da Inacessibilidade é a ideia de que determinados ambientes sociais são construídos como se apenas um tipo de corpo, de percepção e de funcionamento humano tivesse legitimidade para habitá-los.
Nesse sistema, a pessoa com deficiência não é necessariamente impedida de existir. Ela é, porém, constantemente confrontada com a mensagem de que sua presença não foi prevista.
A cidade não precisa declarar sua hostilidade.
Ela pode simplesmente não oferecer uma passagem.
Pode não disponibilizar uma informação.
Pode não considerar determinada necessidade durante o planejamento.
Pode transformar cada deslocamento em uma negociação exaustiva.
A violência assume, então, uma forma peculiar: não se apresenta necessariamente como agressão direta, mas como ausência sistemática de condições para participar da vida coletiva.
É importante distinguir essa reflexão da ideia de que todas as pessoas com deficiência vivenciam a cidade da mesma maneira. As experiências são diversas e atravessadas por fatores como renda, território, raça, gênero, idade, tipo de deficiência e acesso a redes de apoio.
O que existe em comum, em muitos contextos, é a exposição a barreiras que poderiam ser reduzidas ou eliminadas por meio de mudanças sociais e institucionais.
Essa compreensão se aproxima do modelo social da deficiência, desenvolvido a partir das lutas políticas das pessoas com deficiência e de contribuições teóricas como as de Michael Oliver.
Em vez de concentrar toda a explicação da exclusão nas características individuais, o modelo social investiga a maneira como a sociedade produz barreiras à participação.
O modelo médico pode ser importante para compreender aspectos clínicos e necessidades de saúde. O problema surge quando ele é utilizado como explicação exclusiva da deficiência ou quando transforma a pessoa em um problema a ser corrigido.
O corpo deixa de ser visto em sua diversidade e passa a ser comparado a uma norma considerada universal.
Tudo aquilo que se distancia dessa norma é interpretado como falta.
A monstruosidade, nesse cenário, não está no corpo que diverge. Está na estrutura que transforma a diferença em impedimento.
2. O Absurdo Existencial e a Montanha de Sísifo
Na mitologia grega, Sísifo é condenado a empurrar eternamente uma pedra montanha acima, apenas para vê-la retornar ao ponto de partida.
Em O Mito de Sísifo, Albert Camus utiliza essa imagem para refletir sobre o absurdo: o confronto entre a necessidade humana de encontrar sentido e um mundo que não oferece respostas definitivas.
O absurdo não consiste simplesmente na ausência de sentido. Ele nasce do encontro entre a nossa busca por significado e o silêncio do universo.
A figura de Sísifo pode ser reinterpretada à luz da experiência cotidiana de muitas pessoas com deficiência.
Não porque a deficiência seja, em si mesma, uma condenação ou uma existência sem sentido. Essa interpretação seria injusta e reduziria vidas complexas a uma metáfora de sofrimento.
A questão é outra.
O que acontece quando uma pessoa precisa realizar esforços repetidos para superar obstáculos que poderiam ter sido eliminados por decisões relativamente simples?
O que acontece quando a sociedade transforma barreiras evitáveis em testes permanentes de resistência?
É nesse ponto que a pedra de Sísifo adquire uma dimensão política.
A superação como mecanismo de ocultamento
A cultura da superação costuma apresentar a pessoa com deficiência como alguém que triunfa sobre limites extraordinários.
Histórias de persistência podem ter valor e significado para quem as vive. O problema aparece quando essas narrativas são utilizadas para substituir o debate sobre direitos, acessibilidade e responsabilidade coletiva.
Uma pessoa enfrenta uma escada inacessível.
Encontra uma maneira improvisada de chegar ao destino.
Recebe aplausos.
No dia seguinte, a escada continua inacessível.
A celebração pode ter sido sincera, mas não alterou a estrutura que produziu o obstáculo.
Proponho chamar essa dinâmica de Paradoxo da Superação Compulsória.
O Paradoxo da Superação Compulsória ocorre quando a sociedade transforma a capacidade de resistir a uma barreira em justificativa para manter a própria barreira.
Quanto maior o esforço individual, menor parece ser a urgência de transformar o ambiente.
O indivíduo é celebrado por suportar aquilo que não deveria precisar suportar.
A exceção heroica passa a funcionar como desculpa para a permanência da regra excludente.
Esse mecanismo pode ser observado em diferentes contextos:
- Na educação, quando a persistência de um estudante é exaltada sem que se assegurem recursos de acessibilidade.
- No trabalho, quando a dedicação de um profissional é celebrada, mas as condições de inclusão continuam precárias.
- Na mobilidade urbana, quando soluções improvisadas são tratadas como demonstrações de coragem.
- Na comunicação, quando a capacidade de encontrar alternativas é valorizada mais do que a garantia de acesso à informação.
O problema não está em reconhecer a força de alguém.
O problema está em confundir a resistência à injustiça com a solução da injustiça.
A montanha que não precisava existir
O mito de Sísifo também nos permite formular uma segunda hipótese: a de que determinadas montanhas sociais não são inevitáveis.
Elas foram construídas.
E, justamente por terem sido construídas, podem ser modificadas.
Uma rampa não é um gesto de benevolência.
A audiodescrição não é um prêmio.
A Libras não é um favor.
A adaptação razoável não é uma concessão sentimental.
São instrumentos que contribuem para a concretização de direitos e para a participação social.
A verdadeira questão, portanto, não é descobrir quanto uma pessoa com deficiência consegue suportar.
É perguntar por que ela deveria suportar determinadas barreiras em primeiro lugar.
3. O Monstro, o Outro e a Fabricação da Anormalidade
A literatura fantástica e o horror possuem uma longa tradição de representar o desconhecido por meio de criaturas que desafiam as fronteiras do familiar.
O monstro frequentemente aparece como aquilo que não se encaixa.
É o corpo que não obedece às expectativas.
É a forma que escapa à classificação.
É a presença que provoca estranhamento.
Em Frankenstein, de Mary Shelley, a criatura ocupa uma posição particularmente complexa. Embora seja frequentemente reduzida à imagem de um monstro, sua trajetória literária envolve questões de abandono, rejeição, solidão e responsabilidade.
A criatura não nasce carregando uma essência moral que determine sua exclusão.
Ela é também constituída pelas relações que estabelece e pelas respostas que recebe do mundo.
Essa leitura oferece uma chave importante para compreender o capacitismo.
O olhar capacitista tende a transformar a diferença corporal, sensorial ou cognitiva em uma identidade totalizante.
A pessoa deixa de ser reconhecida em sua multiplicidade e passa a ser percebida prioritariamente a partir da deficiência.
Sua profissão, seus desejos, seus conhecimentos, seus afetos e seus projetos são frequentemente colocados em segundo plano.
O indivíduo é substituído pelo diagnóstico.
A pessoa é reduzida à característica que a sociedade considera divergente.
O olhar que produz o monstro
O filósofo Michel Foucault investigou como instituições e discursos participam da produção histórica das categorias de normalidade e anormalidade.
Embora sua obra não trate exclusivamente da deficiência, suas reflexões ajudam a compreender como determinadas sociedades classificam corpos, comportamentos e modos de existência.
O que é considerado normal não é uma categoria neutra em todas as circunstâncias.
Ela pode refletir relações de poder, padrões culturais e interesses institucionais.
A partir dessa perspectiva, podemos formular o conceito de Monstruosidade Normativa.
A Monstruosidade Normativa é o processo pelo qual uma sociedade transforma seu próprio padrão de normalidade em medida absoluta de valor humano.
Tudo o que se distancia desse padrão passa a ser interpretado como insuficiente, incompleto ou inadequado.
O monstro, nesse caso, não é necessariamente uma criatura existente fora da norma.
Ele é uma figura produzida pelo próprio olhar que estabelece a norma.
A monstruosidade não está na diferença.
Está na operação que converte a diferença em inferioridade.
O capacitismo como fantasia de um corpo universal
Toda sociedade constrói imagens, explícitas ou implícitas, sobre o corpo considerado ideal para a vida cotidiana.
Esse corpo deve caminhar de determinada maneira, perceber o ambiente segundo certos parâmetros, comunicar-se por meios específicos e responder a ritmos socialmente estabelecidos.
Podemos chamar esse modelo de Corpo Universal Imaginário.
O Corpo Universal Imaginário não existe como uma realidade concreta e homogênea. Ele é uma construção social utilizada, muitas vezes sem reflexão consciente, para orientar o desenho de espaços, serviços e expectativas.
O problema surge quando esse modelo abstrato é tratado como se representasse todas as pessoas.
A arquitetura passa a reproduzir uma ficção.
As instituições planejam para um indivíduo presumido.
A diversidade real dos corpos é relegada à condição de exceção.
A acessibilidade aparece, então, como adaptação posterior, e não como elemento constitutivo do planejamento.
É nesse ponto que a fantasia se torna política.
A sociedade imagina um ser humano universal e, em seguida, constrói o mundo para esse ser que não existe.
Os demais são obrigados a negociar sua presença.
4. A Primavera, o Calendário e a Estética da Inclusão
As datas comemorativas possuem uma função importante: podem ampliar a visibilidade de pautas historicamente negligenciadas e criar oportunidades para o debate público.
Entretanto, existe uma diferença entre tornar uma questão visível e transformar as condições que a produzem.
O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, celebrado em 21 de setembro, remete à trajetória histórica de reivindicação de direitos e à mobilização política das pessoas com deficiência.
A data não deveria ser compreendida apenas como ocasião para homenagens.
Ela também convoca a sociedade a examinar suas próprias práticas.
O problema surge quando o calendário absorve uma pauta política e a devolve em forma de mensagem decorativa.
A linguagem da primavera pode ser bela.
As flores podem representar esperança, renovação e possibilidade.
Mas nenhuma metáfora, por mais delicada que seja, substitui uma calçada acessível.
Nenhuma imagem de florescimento resolve a ausência de recursos de comunicação.
Nenhuma mensagem sobre diversidade garante, por si só, a permanência de estudantes com deficiência nas instituições de ensino.
É necessário distinguir a dimensão simbólica da celebração de sua dimensão prática.
A teoria da Primavera Cenográfica
Proponho o conceito de Primavera Cenográfica para descrever a transformação de uma pauta social em uma paisagem simbólica de harmonia, sem que essa representação seja acompanhada por mudanças proporcionais nas estruturas materiais.
Na Primavera Cenográfica, a sociedade produz imagens de acolhimento enquanto mantém obstáculos que restringem a participação.
A inclusão é apresentada como atmosfera.
Não como compromisso.
A diversidade é celebrada como decoração.
Não como princípio de organização.
O discurso floresce, mas a estrutura permanece árida.
Essa teoria não propõe rejeitar a esperança, a beleza ou a celebração.
Propõe questionar seu uso como substituto da responsabilidade.
A primavera que importa não é aquela que aparece em uma publicação institucional.
É aquela que pode ser reconhecida na experiência concreta de quem atravessa a cidade, frequenta a escola, utiliza o transporte público, procura emprego ou participa da vida cultural.
Uma sociedade inclusiva não precisa abandonar a poesia.
Precisa impedir que a poesia seja utilizada para ocultar a ausência de direitos.
5. A Burocracia do Abismo: Quando a Indiferença Ganha Forma
O horror cósmico costuma apresentar forças que escapam à compreensão humana.
A burocracia moderna, em algumas de suas manifestações, produz um efeito semelhante.
Não porque seja sobrenatural, mas porque pode tornar a responsabilidade difícil de localizar.
Uma pessoa encontra uma barreira.
Procura uma instituição.
A instituição indica outro setor.
O setor encaminha a demanda.
O encaminhamento produz um protocolo.
O protocolo aguarda uma resposta.
A resposta não chega.
A ausência de solução torna-se um processo sem fim.
O obstáculo permanece, mas ninguém parece ser diretamente responsável por ele.
Essa experiência pode ser compreendida como uma forma de Abismo Administrativo.
O Abismo Administrativo é a distância entre a existência formal de um direito e sua realização efetiva na vida cotidiana.
Quanto maior essa distância, mais a cidadania se transforma em uma promessa abstrata.
O direito existe nos documentos.
A barreira existe na rua.
Entre os dois, ergue-se uma estrutura de procedimentos, omissões e responsabilidades fragmentadas.
A pessoa que reivindica acesso precisa, então, despender tempo, energia e recursos para demonstrar repetidamente que o próprio direito merece ser cumprido.
Essa dinâmica é especialmente problemática quando a acessibilidade é tratada como exceção ou favor.
A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro com status constitucional, estabelece uma perspectiva baseada em direitos humanos, igualdade e participação.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — Lei nº 13.146/2015 — também representa um marco jurídico fundamental na proteção desses direitos.
Entretanto, a existência de normas não garante automaticamente sua implementação.
A distância entre a lei e a realidade exige fiscalização, planejamento, investimento, participação social e responsabilização.
O abismo não desaparece porque recebeu um nome jurídico.
É preciso construir uma passagem.
6. A Fantasia Cósmica da Existência: Corpos que Reescrevem o Mundo
A fantasia cósmica, em suas diferentes manifestações, imagina realidades em que as fronteiras do possível são constantemente deslocadas.
O universo deixa de ser um cenário estático.
Ele se torna um campo de transformação, conflito e descoberta.
Essa perspectiva oferece uma possibilidade particularmente interessante para pensar a deficiência.
Se a sociedade foi construída a partir de uma imagem limitada do ser humano, então a presença de diferentes corpos e formas de percepção pode revelar que essa construção nunca foi tão universal quanto pretendia ser.
A pessoa com deficiência não precisa ser apresentada como alguém que supera sua própria existência.
Ela pode ser compreendida como alguém cuja presença contribui para ampliar a compreensão coletiva sobre o que significa habitar o mundo.
A diferença não é um erro no projeto da humanidade.
Ela é uma das características fundamentais da própria humanidade.
A teoria da Ontologia da Passagem
Proponho, neste ensaio, a ideia de Ontologia da Passagem.
O conceito parte de uma premissa simples: existir socialmente não significa apenas estar presente em determinado espaço, mas possuir condições concretas para atravessá-lo, compreendê-lo, utilizá-lo e participar das relações que nele se desenvolvem.
Uma porta pode estar aberta e, ainda assim, não oferecer acesso a todos.
Uma informação pode estar disponível e, ainda assim, não ser compreensível ou perceptível para todas as pessoas.
Uma instituição pode aceitar formalmente determinado grupo e, ainda assim, criar condições que inviabilizem sua permanência.
A Ontologia da Passagem desloca a pergunta.
Em vez de questionar se determinada pessoa consegue adaptar-se ao mundo, perguntamos:
“Que transformações o mundo precisa realizar para que diferentes pessoas possam participar dele em condições de igualdade?”
Essa mudança de perspectiva possui implicações profundas.
A acessibilidade deixa de ser apenas uma questão técnica.
Ela passa a ser uma condição de existência social.
Uma rampa não representa somente uma solução arquitetônica.
Ela pode significar autonomia, tempo, dignidade e liberdade de escolha.
A audiodescrição não é apenas um recurso de tradução da imagem.
Ela pode permitir o acesso a experiências culturais, educacionais e informativas.
A Libras não é apenas um instrumento comunicacional.
Ela participa da garantia de pertencimento e de participação para muitas pessoas surdas.
A inclusão não consiste em permitir que alguém entre em um mundo previamente acabado.
Consiste em reconhecer que o mundo nunca deveria ter sido projetado como propriedade exclusiva de um único modelo de corpo.
7. Do Abismo à Ação: Cidadania Contra a Caridade
O horror cósmico nos coloca diante de uma realidade desconfortável: o universo não oferece garantias de justiça.
A existência não vem acompanhada de uma promessa de equilíbrio.
Entretanto, a ausência de uma ordem cósmica benevolente não significa que os seres humanos estejam condenados à passividade.
Pelo contrário.
Se a justiça não é uma propriedade automática do universo, ela precisa ser construída nas relações sociais, nas instituições e nas decisões coletivas.
É nesse ponto que a reflexão sobre a deficiência abandona a metáfora e retorna à política cotidiana.
A luta anticapacitista não depende de gestos extraordinários.
Ela exige transformações concretas e permanentes.
Infraestrutura e mobilidade
A acessibilidade urbana precisa ser tratada como elemento fundamental do planejamento das cidades.
Isso envolve, entre outras medidas:
- Calçadas adequadas e rotas acessíveis.
- Rampas e travessias planejadas de maneira segura.
- Piso tátil instalado de acordo com critérios técnicos.
- Transporte público acessível e efetivamente operacional.
- Manutenção contínua dos equipamentos e espaços públicos.
A existência de uma estrutura acessível no papel não é suficiente.
É necessário verificar se ela funciona na prática.
Acessibilidade comunicacional
A participação social depende também do acesso à informação.
Audiodescrição, Libras, legendagem, comunicação alternativa e outros recursos podem ser fundamentais em diferentes contextos.
A escolha dos recursos deve considerar a diversidade das pessoas e suas necessidades específicas.
A acessibilidade não pode ser tratada como um elemento secundário, acrescentado apenas quando alguém reclama.
Ela precisa fazer parte do planejamento desde o início.
Educação e trabalho
A inclusão educacional e profissional não se resume à presença numérica de pessoas com deficiência.
É necessário considerar as condições de ingresso, permanência, aprendizagem, desenvolvimento e participação.
No mundo do trabalho, isso significa enfrentar barreiras físicas, comunicacionais, atitudinais e organizacionais.
A contratação pode ser um ponto de partida.
A inclusão efetiva exige condições para que a pessoa participe, desenvolva suas capacidades e tenha seus direitos respeitados.
Transformação cultural
O capacitismo também se reproduz por meio da linguagem, das imagens e das expectativas sociais.
Isso inclui a infantilização de adultos, a romantização do sofrimento, a associação automática entre deficiência e heroísmo e a ideia de que pessoas com deficiência existem para inspirar os demais.
Uma pessoa com deficiência não precisa transformar sua vida em uma lição moral para justificar sua presença no mundo.
Sua existência não necessita de uma finalidade edificante.
Ela não precisa ser extraordinária para merecer respeito.
A cidadania não é uma recompensa concedida a quem demonstra resistência.
É um direito.
8. O Abismo Não é o Fim: Considerações Sobre a Existência e a Diferença
A literatura de horror frequentemente nos ensina que o medo nasce quando aquilo que considerávamos estável deixa de oferecer segurança.
A cidade pode parecer familiar até o instante em que percebemos que seus espaços não foram pensados para todos.
A instituição pode parecer acolhedora até o momento em que alguém descobre que sua participação depende de uma sucessão interminável de concessões.
O discurso pode soar generoso até que suas palavras sejam confrontadas com a realidade.
O abismo não está necessariamente em um lugar distante.
Ele pode estar na esquina.
No degrau.
Na ausência de uma legenda.
No silêncio de uma instituição.
Na expectativa de que alguém agradeça por receber aquilo que deveria ser garantido.
Entretanto, reconhecer o abismo não significa aceitá-lo como destino.
A existência humana não precisa ser interpretada como uma luta permanente contra um universo hostil.
Tampouco a deficiência deve ser transformada em metáfora de tragédia, mistério ou incompletude.
A fantasia e o horror podem cumprir uma função mais profunda: revelar os mecanismos ocultos da realidade e permitir que imaginemos outras formas de organização do mundo.
Se o capacitismo constrói uma arquitetura de exclusão, a acessibilidade pode ser compreendida como uma prática de reconstrução.
Se a indiferença transforma a diferença em isolamento, a participação pode abrir novas possibilidades de convivência.
Se a sociedade inventou um Corpo Universal Imaginário, cabe a nós abandonar essa ficção e reconhecer a multiplicidade concreta dos corpos humanos.
A verdadeira revolução fantástica talvez não consista em derrotar uma criatura ancestral ou escapar de uma dimensão desconhecida.
Talvez consista em transformar o cotidiano.
Em redesenhar a rua.
Em reescrever os protocolos.
Em questionar os padrões.
Em reconhecer que nenhuma pessoa deveria precisar realizar feitos extraordinários para exercer direitos elementares.
Nas Crônicas do Abismo, os monstros mais inquietantes não são necessariamente aqueles que vivem nas trevas.
São aqueles que se escondem atrás da normalidade.
São as estruturas que permanecem intactas enquanto os discursos se renovam.
São as palavras que celebram a inclusão sem modificar as condições da exclusão.
Mas o abismo também pode ser um lugar de revelação.
Ao olhar para ele, descobrimos que aquilo que parecia natural era, muitas vezes, apenas uma escolha repetida durante tempo demais.
E aquilo que foi construído pode ser reconstruído.
A deficiência não é o abismo.
“O abismo é a distância entre a promessa de uma sociedade para todos e a realidade daqueles que ainda precisam lutar para atravessá-la.”
Preenchê-lo exige mais do que discursos.
Exige presença, responsabilidade, acessibilidade e transformação.
Menos palmas que substituem direitos.
Mais estruturas que garantam autonomia.
Menos mitos de superação compulsória.
Mais reconhecimento da dignidade cotidiana.
Menos primavera cenográfica.
Mais possibilidades reais de florescimento.
Porque, diante da vastidão do universo e da fragilidade de nossas construções sociais, talvez a forma mais radical de enfrentar o absurdo seja esta:
“construir um mundo em que ninguém precise pedir licença para existir.”
Bruno Reallyme é autor e pesquisador independente de temas relacionados à literatura fantástica, ao horror cósmico, à filosofia da existência e às contradições da experiência humana.
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